O tempo cabe numa mesa
Na Quinta do Palame, apetece acreditar que a tarde poderá começar assim: com coisas boas ao alcance da mão e pessoas de quem gostamos suficientemente perto para lhes passar o pão.
Há mesas que começam a receber-nos antes de nos sentarmos. Basta olhar para elas: a toalha branca, os pratos à espera, o presunto cortado fino, o azeite recolhido numa pequena taça. E duas garrafas de vinho, uma de branco, outra de tinto, como quem deixa abertas duas possibilidades de conversa.
Na Quinta do Palame, esta imagem poderia ser o princípio de uma história. Ou talvez seja já a história inteira, contada através daquilo que escolhemos colocar entre nós quando queremos estar bem com alguém.
Ainda ninguém pegou nos talheres. O copo está vazio, as cadeiras guardam os seus lugares e a luz entra pela varanda com a naturalidade de quem conhece a casa. Há qualquer coisa de profundamente acolhedor neste instante anterior à refeição. Tudo está preparado, mas tudo pode ainda acontecer. Falta chegar quem transforme os alimentos em almoço e o almoço numa recordação.
O presunto estende-se sobre a pedra escura, mostrando as suas transparências. O azeite oferece aquela cor que parece guardar um resto de sol. Mais atrás, uma travessa promete outros sabores. Nada precisa de disputar a atenção. Cada coisa tem o seu lugar, e talvez venha daí a serenidade desta mesa: da confiança tranquila no valor do que se serve.
Vivemos cercados de convites à pressa. Comemos enquanto respondemos a mensagens, atravessamos paisagens com os olhos presos ao telefone, chegamos ao fim dos dias sem conseguir distinguir o que fizemos daquilo que apenas nos ocupou. Depois encontramos uma mesa assim e percebemos quanto nos fazia falta sentarmo-nos.
Sentarmo-nos verdadeiramente. Dar atenção ao primeiro gole, partir um pedaço de pão, perguntar a alguém como tem passado e dispor de tempo para ouvir a resposta. Deixar que a conversa encontre o seu caminho, incluindo os desvios, as histórias repetidas e os silêncios em que ninguém sente necessidade de dizer nada.
O vinho acompanha esse vagar. Nos rótulos lê-se Palame, Douro, Reserva. Dentro das garrafas há o resultado de um trabalho que começou muito antes desta toalha ser estendida. Houve dias de campo, decisões, cuidados e espera. À mesa, tudo isso chega de uma forma simples: alguém serve, alguém prova, alguém aproxima o copo para receber mais um pouco.
É também assim que um lugar se dá a conhecer. Pela maneira como abre a porta, dispõe as cadeiras e reparte aquilo que tem. Podemos esquecer a ordem dos pratos ou o assunto de uma conversa. Lembramo-nos, porém, da sensação de termos sido recebidos com gosto.
Talvez esta fotografia nos detenha por isso. Mostra uma mesa posta, mas deixa espaço para imaginarmos as pessoas. Quase ouvimos o arrastar de uma cadeira, a primeira saudação, o pequeno ruído do vinho a cair no copo.
Na Quinta do Palame, apetece acreditar que a tarde poderá começar assim: com coisas boas ao alcance da mão e pessoas de quem gostamos suficientemente perto para lhes passar o pão.
Depois, a luz mudará devagar sobre a toalha. Alguém contará uma história. E, por uma vez, ninguém olhará para as horas antes de ela acabar.

